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Pega no Pino8

Causa frisson na mão de certo sub-ramo da humanidade manusear o exemplar da foto. Trata-se de um dos 55 mil que compõem a biblioteca de Pinochet, um dos maiores acervos privados ao sul do Equador.

Quando não estava ocupado na carniceria do subsolo, o general era dado a subtrair propriedade pública – passava cheques da Presidência para amealhar pílulas de sabedoria como esse “Comentário Sociológico”. Hoje, por poucos pesos, o leitor compra num sebo de Santiago o livro que pertenceu ao general responsável por 28 mil casos de tortura e 3 mil mortes em 17 anos de um governo cujos logros econômicos ainda fazem muito economista moderno melar a cueca de seda.

O livro em questão foi doado por Pino8 à Academia de Guerra do Exército do Chile. Ameaçado pelo confisco das obras pela Justiça – afim de ressarcir aos cofres públicos parte da subtração descoberta em 2001, no rastro das investigações de contas terroristas vinculadas ao 11 de Setembro americano – Pino8 preferiu doar os exemplares ao Exército, fazendo passar picaretagem por caridade. Depois da morte do homem, algum herói de retidão prussiana encarregou-se de ganhar uns pesos em benefício próprio revendendo a obra, então em poder do Exército, para o livreiro Luis Rivano, o mesmo que, nos anos de chumbo, bem fornia a biblioteca do ditador. A descoberta da fraude é parte da apuração que realizo para publicação em breve no Brasil.

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2 comentários sobre “Pega no Pino8

  1. Há frequentador de sebo da direita? Mais provável pra vender do que pra comprar. Há fraude, ao tentar humanizá-lo, assim, ao colar um olhar torto – escuso patrimonialismo, à visão “reta” – de um “proprietário”, agora com sabor san(tia)guino, também usurpado. Alguma coisa ele leu errado, então que você faça, melhor, leitura de “seu” livro “Comentario Sociologico”, já que o comentário dele está abaixo de qualquer ciência social… é mais de crônica, mas sem prosa, policial. Ricardo.

    • Pinochet não apenas consumia literatura de esquerda (há uma foto deliciosa do general lendo Gramsci) como criava e fomentava grupos de estudo e debate de teoria marxista no interior de seu governo, afim de melhor entender o fenômeno ao qual dedicava a maior parte de sua energia – no afã de expurga-lo da face da Terra. Livro e arma, largados a sua própria sorte, não fazem nada. Ao fim e ao cabo o que conta é o sujeito, o cabra.

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