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Onde o protesto vai dar

blog22ASe o Brasil quer saber aonde vai dar o acirramento da divisão estabelecida de maneira mais aguda desde junho, entre esquerda e direita, coxinhas e ninjas, manifestantes e acomodados, Lulas e tucanos, deve olhar para o Chile – único país da região onde essas diferenças se apresentam fossilizadas desde o governo Allende (1970-1973), sem atenuantes.

A fase crônica de protestos que os brasileiros experimentam há três meses, já dura quase três anos em Santiago. Marchas multitudinárias, choques com polícia, prisões em massa, agressões a jornalistas, destruição de bens públicos, debate sobre o uso de lacrimogêneo e balas de borracha, redução de taxas públicas e mais uma batelada de temas semelhantes estão não apenas nas ruas, mas nas pichações visíveis em todos os muros do Centro da capital, nos noticiários da noite e, como não poderia deixar de ser, nas redes sociais. A agenda dos protestos se tornou onipresente.

Apenas farpas dessa realidade chegam ao Brasil. A Folha de S. Paulo diz, em sua edição de hoje: “ditadura será tema da eleição presidencial” de dezembro. Tal título só é possível mesmo no exterior. Para os chilenos, é óbvio que não existe qualquer decisão política nacional que não passe obrigatoriamente pela cisão estabelecida desde a ditadura entre direita e esquerda, entre ditadura e democracia. O esquema vermelho x azul que o Brasil experimenta desde os anos 90, na primeira gestão de FHC, existe no Chile há quase 30 anos. É como se o país, desde a redemocratização, só conhecesse a dualidade PT x PSDB, aqui representada pelo choque entre a Concertación (centro esquerda) e a Alianza (de direita).

No mês passado, publiquei no jornal chileno La Tercera – se El Mercurio for o Estadão, La Tercera é a Folha, para contextualizar – uma entrevista com o jornalista brasileiro Clóvis Rossi. Nela, ele dizia que, enquanto durante a ditadura brasileira, a esquerda apostou suas fichas na luta armada, perdendo a conexão com a via do protesto e a articulação mais orgânica com a sociedade, os chilenos mantiveram um pé em cada barco e, se é bem verdade que ousaram ainda mais que os brasileiros na via armada, é igualmente verdade que mantiveram a pressão nas ruas, mesmo sob ditadura. Daí o know how avançado em fazer o que, no Brasil, apenas começamos a aprender, com mobilizações episódicas como a das Diretas, ou dos Caras Pintadas.

Isso significa que o modelo chileno é um objetivo a perseguir? Não. A menos que você ache que os almoços em família devem terminar em briga por razões políticas e não se importe que todo debate na televisão tenha de partir do golpe para explicar fatos presentes e futuros. Nesse caso, teríamos também de trocar a cerveja pelo vinho, o café pelo chá, e o calor pelo frio, porque o hábito de confraternizar em torno das feridas do passado não combina com Carnaval.

Deve haver um meio termo entre alienação e engajamento permanente. Geograficamente, esse meio termo cairia sobre a Argentina. Topam?

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2 comentários sobre “Onde o protesto vai dar

  1. Ter apenas um pé desequilibra. Alternância é necessária, de poder da direita e esquerda, quando o saber estiver externo ao indivíduo e acontecerá no coletivo das políticas públicas. Escolher entre ser – figurado, e estar – literal. O debate literário é mais sofisticado e aceita nuances ao passo que estar é mais pragmático e de massa, mais sensível à influência televisiva. A leitura dá chance a um pé à frente – progressista, mas reforça outro pé, de apoio – conservador, atrás. Abraços. Ricardo.

  2. Ter apenas um pé desequilibra. Alternância no poder é necessária, de direita e esquerda e, enquanto o saber estiver externo ao indivíduo, acontecerá apenas no coletivo das políticas públicas. Escolher ser – figurado, além de estar – literal, é o desafio. O debate literário é mais sofisticado e aceita nuances, ao passo que o estar é mais pragmático e de massa, mais sensível à influência televisiva. A leitura dá oportunidade ao pé da frente – progressista, mas reforça também o outro pé, de apoio – conservador, atrás. Abraços. Ricardo.

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