Quase Humor

‘O que ela tem que eu não tenho?’

blog12A‘O que que ela tem que eu não tenho?’, deve ter se perguntado a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, hoje, na cerimônia de posse da colega chilena Michelle Bachelet, em Valparaiso. Bachelet terminou seu primeiro mandato com um nível de aprovação igual ao de Lula, coisa com a qual Dilma não ousa sonhar. Enquanto a médica chilena é uma tiazona carinhosa e acolhedora, Dilma desfila durante 24 horas com a delicadeza de uma motorista de empilhadeira com o câmbio travado na primeira marcha.

Olhando para trás, Bachelet tinha tudo e mais um pouco para amarrar a cara como Dilma. Se a brasileira foi torturada, a chilena também foi – mais do que isso, Bachelet foi torturada junto da mãe na Villa Grimaldi, um dos campos de tortura e morte mais horrorosos de que se tem notícia no mundo. Além disso, perdeu o pai, morto pela ditadura do general Augusto Pinochet. No campeonato do rancor, a chilena levaria larga vantagem. A diferença entre as duas não está no passado, mas no futuro.

Bachelet nunca cedeu à tentação de se impor na política usando códigos comuns ao machismo. Dilma cedeu. E gostou. Bachelet é o triunfo do carinho – assim como o presidente do Uruguai, Pepe Mujica, também é. Carinho não é exclusividade das mulheres. É uma opção. E pode ser uma opção política.

Quando entrevistei Bachelet, em 2009, ela disse que, mesmo nos piores momentos – como quando voava baixíssimo na popularidade, durante o início do primeiro mandato – nunca cogitou de se impor pelo uso da força, da ameaça, da intransigência e da arrogância. Penso que essa foi a grande contribuição da presidente chilena para o futuro e para a cultura política latino-americana. Num país onde o machismo é muito mais arraigado do que no Brasil, onde homens e mulheres votam em cabinas separadas, Bachelet se impôs por meio de valores tremendamente femininos. E o fez de caso pensado.

Quando vier ao Brasil – entre o fim deste mês e o próximo, de acordo com as previsões -, Bachelet pode dar umas dicas a Dilma sobre como ‘bolar’ de um jeito mais feminino, com toda a malemolência cordilherana.

Veja esta análise também no Brasil Post.

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Um comentário sobre “‘O que ela tem que eu não tenho?’

  1. Proteger o filho – da pátria chilena, e a mãe – Bachelet, é tarefa de pai – eleitor emancipado. Querer possuir a pátria – Brasil, ao “matar” o pai – Dilma, é o desejo do filho – eleitor não emancipado. Sinto muito, tal complexidade. Talvez a Bachelet tenha sido analisada, João Paulo Charleaux, por algum adepto de Lacan. Percebeu a “morte”, impingida, da figura do pai, por ação da figura de seu filho. Prefira, por isso, ser mãe. A Dilma – suposta freudiana, provavelmente nutra a figura do pai, e queira redesenhá-la. Ao reagir ao desenho feito por ditaduras. Ali, nas ditaduras, a figura do pai é quem, covardemente, matava a figura dos filhos da pátria. O ideal é que o pai regule distância entre o filho e a mãe. O desejo do filho é ficar com a mãe. Idealiza, pra isso, afastar o pai. Caso consiga, fica com sensação de pensamento mágico – tê-lo pensado e conseguido. A partir daí tem medo de pensar – se morte verdadeira. Abraços verdadeiros, em entendimento de Lacan. O freudiano “não ensina” – diretamente, e depende da percepção do analisado. Ricardo.

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