Humanitário

O Haiti chegou a SP

blog6AAjudar o Haiti foi uma boa ideia. Mas só enquanto os problemas estavam represados no Caribe. Com a onda migratória de haitianos chegando a São Paulo, o Brasil mudou de opinião. O ‘altruísmo desinteressado’ cedeu lugar a uma política de acolhida mesquinha. Agora, os haitianos passeiam pelas ruas, penando as agruras de uma política “humanitária” manca, que se presta mais à propaganda internacional do que à efetividade. 

Mesmo imerso em misérias, o Haiti foi durante um tempo um pote de ouro no fim do arco-íris de pretensões internacionais do Governo Lula (2003-2011). Ao encabeçar o braço militar de uma das mais complexas missões de paz da história das Nações Unidas, o Brasil esperava pavimentar seu caminho não apenas para o Conselho de Segurança da ONU, mas também para uma pretendida multipolaridade na qual EUA e Europa cederiam lugar aos países emergentes, como o Brasil. Neste período, o país mais pobre das Américas foi uma das vitrines deste sempre reeditado sonho brasileiro de grandeza.

Passados 10 anos do início da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), o cobiçado pote de ouro está inalcançável. O Haiti não apenas não se recobrou dos anos de violência e dos desastres naturais, como também o Brasil desnorteou sua política externa, tirando da chuva seu cavalo de pretensões.

Um dos saldos finais desta aventura pode ser visto desde a semana passada nas ruas de São Paulo. Nos últimos três anos, mais de 30 mil haitianos migraram para o Brasil e uma média de 40 deles entram todos os dias pela fronteira. Cansado de lidar com este fenômeno migratório inesperado, o Governo do Estado do Acre mandou os haitianos de ônibus para São Paulo, dando início a uma troca de acusações entre governos estaduais, na qual o maior responsável – o Governo Federal – assiste calado.

Os ministérios da Justiça, do Trabalho e das Relações Exteriores foram alertados expressamente, oito meses atrás, do desejo do Governo do Estado do Acre de fechar o abrigo que recebia os haitianos em trânsito, na pequena cidade de Brasileia. Mas nada foi feito. Quando os acreanos finalmente cumpriram a ameaça e lançaram a diáspora haitiana pelo Sudeste, foi um alvoroço. Brasília se disse “pega de surpresa” e São Paulo ameaça agora, não se sabe exatamente como, “processar” o Acre.

O que aconteceu com o país tão solidário que dizíamos ser? De repente, a nobreza do gesto se foi e restou um jogo de empurra entre “entes federados” que se mostram cada dia mais perdidos em lidar com o que se transformou numa batata quente. Por que, enquanto estão no Haiti, os haitianos merecem discursos empolados de apoio, hospitais de campanha, obras de engenharia, jogos da Seleção Brasileira, mas, quando chegam ao Brasil, passaram a ser recebidos primeiro num campo empoeirado e superlotado, para logo serem despachados em ônibus para um destino incerto, chegando a uma megalópole como São Paulo, sem sequer saber para onde ir?

Ser duro com migrantes é uma opção. Há inúmeros países desenvolvidos que mostram como se faz isso. Mas nenhum deles chama isso de “humanitário”, como o Brasil. É preciso decidir se repetiremos o modelo do Norte, que trata migrantes pobres como uma sub categoria de gente, ou se temos algo de diferente a oferecer ao mundo.

Há elementos valoráveis na política brasileira em relação aos haitianos. A concessão de CPF e Carteira de Trabalho é um deles. Já a concessão do chamado “visto humanitário” é nebulosa. Se estivesse funcionando a contento em Porto Príncipe, por que tantos haitianos se arriscariam a fazer uma viagem por terra, cruzando 6 mil quilômetros e várias fronteiras, ilegalmente, para entrar no Brasil?

Conectas, que há quase dois anos acompanha com rigor o assunto, fez uma série de perguntas chave ao Ministério da Justiça. Respondê-las a contento e sair da comodidade dos gabinetes de Brasília para entender o que os haitianos passam são bons passos iniciais para pôr fim ao jogo de empurra que começa a esquentar em ano eleitoral, enquanto os maiores interessados em ver o lado humanitário da história – os próprios haitianos – passam de galpão em galpão, sem entender onde exatamente está o altruísmo brasileiro.

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