Protestos

Mataram dois manifestantes a tiros

peladoAconteceu. Dois jovens foram baleados enquanto protestavam na rua. Os estudantes Exequiel Borvarán, de 18 anos, e Diego Guzmán, de 24, foram assassinados na quinta-feira, enquanto participaram de uma marcha pela educação na cidade chilena de Valparaíso. O crime manda um recado para todos os países latino-americanos nos quais o acirramento político tem descambado para a violência, como é o caso do Brasil.

Em São Paulo, no último protesto da direita, na Avenida Paulista, uma militante do PT (Partido dos Trabalhadores) foi escorraçada por uma multidão furiosa. Eu havia sido escalado para cobrir o protesto para a VICE. Quando percebi o risco de que a jovem fosse linchada pela multidão, puxei meu bloco de anotações e me interpus entre ela e os agressores, sob pretexto de fazer perguntas que eu sabia que nunca viria a usar. Temia que a coisa saísse de controle. Em protestos anteriores, a própria esquerda havia hostilizado membros de partidos, queimando bandeiras e agredindo jornalistas. O comportamento de ambos os lados mostra se tratar de uma militância que se iguala ao que diz combater – o sectarismo, a ignorância e a violência. Os extremos de ambas as marchas têm se igualado nos excessos.

Dessa vez, o Chile – visto estupidamente na pelos vizinhos latino-americanos como um país branco, engravatado, nevado, etilizado e elitizado – mostra de maneira crua o risco da irracionalidade que emerge nas manifestações de rua. Os brasileiros que desprezam os países bolivarianos, e portanto dão de ombros para o que ocorre, por exemplo, em Caracas, na Venezuela, deveriam se deter nas mortes de Exequiel e Diego, sob risco de ver o mesmo ocorrer dentro de casa.

Os estudantes “estavam colando cartazes. Não estavam fazendo vandalismo. Não estavam destruindo propriedade privada, nem invadindo”, disse em entrevista coletiva após o crime Valentina Saavedra, presidente da Fech (Federação de Estudantes do Chile), uma espécie de UNE (União Nacional dos Estudantes) local.

Ricardo Paredes, porta-voz Cones, organização dos estudantes secundaristas chilenos, chamou a atenção para o fato de os tiros terem sido disparados não pela polícia, mas por um civil, um morador da cidade. “Não é possível que um par de companheiros sejam baleados simplesmente porque estavam se manifestando numa via pública. Não entra na cabeça que o chileno comum, que anda a pé, que tanto fala que o Chile é uma democracia plena, não é uma democracia como a da Venezuela, como Bolívia, hoje tenha atitudes fascistas partindo de sua própria sociedade, nem sequer estamos falando da polícia. Estamos falando de pessoas.”

Como enviado especial e correspondente internacional, cobri muitas, muitas, muitas manifestações semelhantes no Chile – para a Folha, o Estado e a Rádio França Internacional. Mas nunca senti a presença da violência lá como cá, no Brasil de agora. Paradoxalmente, nem com as mortes de quinta-feira. Intimamente, sei que somos capazes de coisas piores em São Paulo ou no Rio de Janeiro. É questão de haver fagulha. E o que não falta hoje é gente friccionando paus e pedras, à espera de uma chispa.
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