Quase Humor

Sacando corruptos num voo para Brasília

Corrupto1Entre Lava Jato e Zelotes, há uns R$ 20 bilhões em grana corrupta voando pelo Brasil. Parte dela foi carregada em espécie por senhores de terno como os que estavam ao meu lado no JJ 3700 no mês de março.

Quando você vai a Brasília, a desconfiança recai sobre um tipo de malandro diferente do preto-pobre que tanto fascina a polícia.

Ainda no táxi, a caminho de Congonhas, li na Folha que mulas foram vistas voando pelos céus do Brasil carregando consigo maços de dinheiro embalados em plástico zap. Mulas são pessoas pagas por traficantes para levar drogas de um país a outro, dentro do próprio estômago, separada em pequenas cápsulas. No caso das mulas empresárias, o dinheiro da corrupção aparecia amarrado a pernas peludas e a dorsos masculinos providos de tetas, fazendo a ponte aérea da corrupção.

Qualquer um daqueles passageiros de terno e sapato pontudo dariam uma bela mula gorda e protegida do olhar desprevenido que a polícia costuma ter pra esse tipo de crime sofisticado.

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Você conhece o tipo pelo celular em punho. Ele sobe a voz cada vez que pronuncia a palavra “deputado”. Quer ter certeza de que todos ao redor sabem que ele é poderoso, que tem um canal no Congresso, que veste uma cueca recheada, passeia de lancha na represa, faz implante de cabelo, usa uma pulseira de metal energizante e namora uma mulher 20 anos mais jovem de beleza duvidosa.

Rafael Angulo Lopez foi investigado como um sacripantas dessa estirpe. Ele assessorava o doleiro Alberto Yousseff, pivô da Operação Lava Jato, preso em Curitiba. O homem fez um acordo com a Polícia Federal segundo o qual reduz sua pena cada vez que entrega um novo detalhe do esquema do chefe. Recentemente, ele contou como mulas levavam até R$ 500 mil em bolos de notas de R$ 100 embaladas em plástico zap. Até meia-calça era usada pelos trombadinhas de terno e gravata. (“Cuidado com a virilha, Clécio”, posso ouvi-los dizendo.)

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Seria boa piada dizer que segurei minha carteira ao entrar no avião, mas os homens da Lava Jato não ligam para pouca monta. Estamos falando de um caso de quase R$ 3 bilhões, calculando apenas o prejuízo à Petrobras.

Embora esse Petrolão já seja uma coisa tremenda, me peguei pensando no caldeirão que meus vizinhos bateriam se entendessem melhor uma tal Operação Zelotes. Nela, empresários e advogados respeitáveis – que em nada se diferenciam do homem calvo sentado na minha diagonal que começou a escrever um texto com o título “proposta” depois de ter fechado um joguinho no ipad em que um pichador foge da polícia pela linha férrea recolhendo moedas (recolhendo moedas alheias! Peguem o sacripantas, é uma confissão!) – tramavam no Ministérios da Fazenda uma forma de anistiar dívidas com a Receita Federal.

Em 70 casos investigados, a PF já encontrou um provável rombo de R$ 6 bilhões, embora nenhuma denúncia tenha sido ajuizada ainda. Estimasse que a coisa toda chegue a R$ 19 bilhões em fraudes, o que equivale a três vezes o valor da Lava Jato.

Na Operação Zelotes, ainda não há políticos envolvidos. São apenas empresários de algumas das maiores empresas do país. Todos eles metidos em mutretas com o Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) – última instância de análise das dívidas de grandes empresas com o fisco, espécie de STF (Supremo Tribunal Federal) dos impostos, como um tapetão do Campeonato Brasileiro.Corrupto3

Sob o céu luminosamente previsível de Brasília, pousamos, com certo atraso. No desembarque capangas aguardavam passageiros influentes. Lá fora, carros oficiais esperavam estacionados em locais proibidos. Autoridades circulam por uma saída separada. Acho que os grandes empresários usam voos próprios, jatinhos particulares. Mas, de um jeito ou de outro, todos saem ilesos no fim do túnel, à direita e à esquerda, diz a placa.

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2 comentários sobre “Sacando corruptos num voo para Brasília

  1. …sempre andei de bike, por isto a virilha sempre em dia. De onde saiu a tal expressão? 🙂 A maior quantia em cash que peguei nem era minha: me pediram pra trazer tudo em moeda pra facilitar o troco no meu primeiro emprego, no século XX.

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