Swissleaks

O que a Veja não viu no caso Romário

RomOs leitores que hoje se regozijam com o erro da revista Veja sobre as falsas contas bancárias atribuídas pela publicação da editora Abril ao senador Romário (PSB-RJ), na Suíça, onde haveria R$ 7,5 milhões não declarados pelo ex-atleta à Receita Federal, são em boa parte os mesmos que há 6 meses dedicavam o melhor do seu tempo a atacar a apuração cautelosa que o jornalista Fernando Rodrigues (UOL) fazia de um caso semelhante, o Swissleaks, que reunia mais de 8 mil contas bancárias brasileiras suspeitas no HSBC de Genebra – entre as quais, movimentações atribuídas a Cláudia Raia, Jô Soares, Márcio Fortes e outras figuras tão diversas, famosas e influentes quanto o baixinho. Os dois casos ocupam extremos opostos de um mesmo assunto: critérios de apuração jornalística e de publicação de dados de contas não declaradas por figuras públicas brasileiras em bancos estrangeiros.

Na matéria da revista Veja, os jornalistas Thiago Prado e Leslie Leitão, de posse de um documento falso, disseram que “a conta não declarada na Suíça passa a ocupar o topo da lista de enroscos financeiros de Romário em tempos recentes”. A publicação chamou o senador de “mau pagador” e construiu um texto adjetivado para descascar o ex-jogador. Em defesa da revista se pode dizer que constava na matéria uma frase do baixinho negando tudo: “Até agradeço por me informarem. Se for dinheiro meu, vou buscar”, ironizou a fonte que, com o dito, figurou de fanfarrão num texto construído para lhe vexar. De acordo com Leslie e Prado, o documento que provaria a fraude estava “nas mãos do Ministério Público Federal”. A fonte oficial (ou alguém dentro dela) conferiam o esteio necessário, sob o ponto de vista dos jornalistas, para cravar o título: “Romário tem conta milionária na Suíça”. Não tinha.

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O documento era falso, a fonte que vazou o papel era fraca e agora tanto o senador quanto o banco suíço BSI, com sede em Lugano, tocam em frente um processo milionário contra a revista, os jornalistas e quem mais pintar pela frente.

O caso encarna o pesadelo jornalístico perfeito. É o equivalente a um erro médico. Pessoalmente, o horror desses fracassos me fascina tanto que há dois anos coordeno por iniciativa própria uma mesa sobre erros jornalísticos no congresso anual da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), da qual, este ano, participaram os colegas William Waack (Globo), Roberto Lameirinhas (Estadão) e Bruno Manso (Ponte).

Swissleaks

Se a apuração da história de uma única conta bancária na Suíça provocou esse enrosco, o que dizer da apuração da existência de mais de 8 mil contas brasileiras, num total que supera os R$ 20 bilhões? Essa era a trolha nas mãos do jornalista Fernando Rodrigues no caso Swissleaks.

Não cabe recuperar aqui o caso todo, mas é curioso ver a diferença nos métodos de apuração. A relutância de Rodrigues em publicar a lista completa dos nomes, sem antes fazer a correta apuração, valeu-lhe uma onda de ataques violentos. Diziam, no mínimo, que Rodrigues protegia o (agora ex-) patrão, já que os donos da Folha apareciam entre os nomes.

A torcida dos leitores influencia o jornalismo. Lidar com isso é parte da profissão. Meu ex-chefe de Estadão, Lameirinhas, bem lembrou em post pessoal no Facebook essa semana, sobre o caso Romário: “com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”. A profecia é de Joseph Pulitzer.

A história toda ainda não acabou. Tudo é possível. Mas com o processo movido por Romário já se pode medir o valor da precaução em reais. E da credibilidade também.

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3 comentários sobre “O que a Veja não viu no caso Romário

  1. Durval disse:

    “Quando jogava na Europa, tive conta no BSI, só não sei o ano. (…) Mas, se tem conta no banco e não movimenta, acho que fecha automaticamente”

    Romário de Souza Faria

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