Protestos

Preso por ler um livro

GeneO presidente angolano, José Eduardo dos Santos, há 36 anos no poder, mandou em cana 15 cidadãos cujo crime foi se opor ao seu governo. Como evidência, a Justiça diz que, ao entrar no local da reunião do grupo, havia sobre a mesa um livro chamado “Da Ditadura à Democracia“, do escritor americano Gene Sharp. Conheci Sharp em Oslo, na Noruega, há 3 três anos. A reportagem, publicada hoje na Folha por Fábio Zanini, me fez lembrar da conversa que tive com Sharp e de como ele passou 80 anos vendo gente ser presa por ler seus 20 livros livros traduzidos para mais de 30 idiomas.

“Um companheiro foi detido e condenado a 7 meses por estar com páginas fotocopiadas de seu livro, senhor Sharp”, disse um moreno barbado de aspecto maciço, chamado Al Maskati Mohamed, representante da Sociedade dos Jovens pelos Direitos Humanos no Bahrein, uma ilha do Golfo Pérsico 2 mil vezes menor que a cidade de São Paulo, onde há meses grupos de manifestantes vinham pedindo a renúncia do líder de uma dinastia que estava há mais de 200 anos no poder. “Sete meses de detenção?”, retrucou Sharp. “Isso é quase uma ofensa para a minha obra. O que está havendo? Eu costumava ver dissidentes serem condenados a sete anos por possuir um exemplar dos meus livros”, disse Sharp, sem sorrir. Esse é apenas um trecho do que presenciei e contei sobre Sharp numa reportagem publicada originalmente no Opera Mundi.

O próprio Sharp passou 9 meses em cana por protestar contra o recrutamento de jovens americanos nos anos 50.

“Esses movimentos políticos são dramáticos e não acontecem porque as pessoas pensem que eles vão triunfar, porque pareça uma boa ideia no momento. Normalmente, isso é fruto da necessidade. Não se trata de cálculo”, me disse, para tentar explicar o que acontece, em parte, em países como a Síria e o Egito hoje. A lição serve também para os angolanos em cana.

Recupero um trecho bacana da reportagem original:

Uma de suas maiores contribuições é um guia com 198 medidas pacíficas a serem tomadas caso você e seus amigos queiram derrubar uma ditadura. Há muitas dicas úteis, além das tradicionais marchas e protestos. Por exemplo, porque não organizar uma série de festas? Ninguém poderá dizer que se trata exatamente de um protesto e, num lugar fechado como a Coreia do Norte ou o Sri Lanka, isso pode ter algum efeito. Ou ainda mais simples: instruir o povo a simplesmente virar as costas às autoridades. Todos juntos, ao mesmo tempo. Parece ingênuo, mas estamos falando de rincões realmente obscuros.

Você também pode simplesmente ficar em casa. Ninguém sai na rua, não há protesto. Ou, ao contrário, combinar um dia para que toda a população vá andando ao trabalho, na mesma hora; deixe de pagar em massa determinada conta pública como luz ou água num determinado mês do ano ou combine um dia para que o máximo de pessoas saque dinheiro dos bancos no mesmo dia, na mesma hora. Nada disso? Então suma. Isso, ele propõe desaparições coletivas voluntárias como forma de abalar a “normalidade” que regimes fechados tentam manter a todo custo.

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