Defesa

A ignota morte do general Jaborandy

08-31-2015Jaborandy_MINUSTAHQuando você se preparava para sair pro feriado da Independência, na última sexta-feira, o Exército Brasileiro desembarcava em Maceió o corpo do general José Luiz Jaborandy Júnior, morto cinco dias antes a bordo de um voo comercial que ia de Miami a Manaus. Jaborandy comandava a maior operação militar brasileira desde a Segunda Guerra Mundial. Ele tinha sob sua responsabilidade todos os militares que compõem a Missão da ONU no Haiti, a mais ambiciosa missão da história das Nações Unidas quando se trata de tentar reconstruir institucionalmente um país, do zero. O militar não foi o primeiro brasileiro morto no posto. Antes dele, outro general, Urano Bacelar, se matou com um tiro na cabeça, em 2006, num hotel da capital haitiana. Outro brasileiro, o soldado Geraldo Barbosa Luiz, de apenas 21 anos, também morreu depois de disparar contra si mesmo, em novembro do ano passado, enquanto servia na mesma missão. Jaborandy havia assumido em março. Ele tinha apenas 57 anos. Todo funcionário a serviço da ONU passa por avaliações de saúde quando serve no exterior. Mais ainda se está no comando de tropas operacionais. Apesar disso, o general simplesmente “passou mal” e “acabou falecendo de mal súbito“, de acordo com declaração dada pelo tenente-coronel Hélder ao G1.

Conheci Jaborandy pessoalmente no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), na Amazônia, em 2012. Ele era especialista nessa área. Havia feito um curso duríssimo no Brasil e um outro no Panamá. Em 2002, ainda como coronel, comandara o CIGS para, em 2011, assumir o Comando Militar da Amazônia, um dos postos mais estratégicos no Exército Brasileiro. Jaborandy era um homem sólido, largo, estável, plantado no chão. Tenho quase 1,95m e, mesmo assim, sentia a mão sumir quando o cumprimentava. Nada na sua aparência sugeria fragilidade. É surpreendente como um general cheio de saúde, testado por uma das áreas mais exigentes da carreira militar – a guerra na selva -, avaliado clinicamente antes de assumir o cargo operacional mais importante do Brasil, morre assim, de repente, de “mal súbito” num voo comercial.

Em abril de 2013, usei a Lei de Acesso à Informação para descobrir como o Exército acompanhava a saúde mental dos militares em missão no Haiti. Com base nos dados, publiquei em novembro uma reportagem chamada “O Brasil não sabe nada sobre seus soldados suicidas“. Recupero trecho do texto:

“Tendências suicidas poderiam ser detectadas mais facilmente se o Exército soubesse quantos de seus homens voltam da missão apresentando Transtorno do Stress Pós-Traumático, Transtorno Depressivo, Transtorno Fóbico, Transtorno de Ansiedade, Transtorno de Pânico, Agorafobia e Esquizofrenia. (…) O Exército só consegue detectar isso por meio de ‘autorrelatos padronizados (inventários) em que o respondente indica os sintomas que tem experimentado'”. A própria instituição reconheceu que “nem todos os militares respondem aos itens dos instrumentos psicológicos. O CEP (Centro de Estudos de Pessoal) não conseguiu, pois, alcançar todo o universo do contingente.’ Especificamente sobre Transtorno de Pânico, não há dados.”

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É evidente que o stress e o risco para a saúde física e mental, o risco de morte, faz parte da carreira militar, ainda mais quando se participa de uma missão real, operacional, em terreno, no exterior, num dos países mais pobres e complicados do mundo. Mas é a segunda morte de um comandante a cargo da missão brasileira mais ambiciosa dos últimos 60 anos.

Fatalidade? Pode ser. Dupla fatalidade, considerando a morte de Urano Bacellar nove anos antes? Pode ser também. Negligência do Brasil ao selecionar seus mais altos quadros? Negligência da ONU? Depressão e infarte são dois males de incidência tão randômica e imprevisível a ponto de passar entre a malha fina de qualquer recrutamento?

Em novembro, alertei para um fato relevante: “Dos 17 contingentes brasileiros engajados na missão nos últimos dez anos, apenas quatro militares tiveram transtorno de ansiedade e outros três tiveram depressão, mas, como a própria instituição diz, nunca se saberá da incidência no universo total de militares envolvidos na missão até que os casos aconteçam”, uma vez que só se afere a incidência por meio de “autorrelatos”.

A participação do Brasil no comando da Minustah deixará vários legados positivos para a doutrina militar em missões de paz. Um deles poderia ser um controle mais efetivo da saúde física e mental de seus próprios colaboradores. Heróis são coisas de cinema. Os militares também são gente. E podem ser vítimas do próprio mito de invencibilidade que projetam sobre si mesmos.

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